Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Google-Translate-Portuguese to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

ONLINE
2




Partilhe este Site...





Total de visitas: 404634
TEXTOS VENC. III OLIVEIRA CARUSO- NATAL E ANO NOVO
TEXTOS VENC. III OLIVEIRA CARUSO- NATAL E ANO NOVO

  QUADRO DE MEDALHAS

 

 

NA CATEGORIA “POESIA”         

 

 

MEDALHA DE OURO:

 

LUIZ POETA (RIO DE JANEIRO - RJ) - FABULINHA DE NATAL

 

 

Uma rena desgarrada do trenó,

Encontrou, na solidão do seu caminho,

Deprimido, abandonado, triste e só,

Silencioso e pensativo, um carneirinho...

 

Por notá-lo – mais que ela – tão sozinho,

Perguntou ao cabisbaixo animal:

- Aonde vais,  tão infeliz, pobre bichinho ?

E ele disse: - Procurar o meu Natal.

 

- Teu Natal ? ...mas que Natal que tu procuras ?

- Ora... aquele que celebra o nascimento

De Jesus... levando amor às criaturas

Que perderam sua fé por um momento.

 

- Sabe, amigo, eu busco o Papai Noel –

Disse a rena – tu aceitas um presente ?

E o carneiro: - Nesse mundo tão cruel,

Só o amor é que me faz ficar contente.

 

- Mas é isto que te dou: o meu amor !

- Teu amor ? de que amor que tu me falas ?

O que tem um envoltório sedutor ?

...ou aquele onde me amas quando calas ?

 

- Como assim ? ...o meu presente é mais concreto...

- Mas se um dia o teu presente se quebrar ?

- Lembrarás o teu amigo predileto:

Uma rena preocupada em ajudar.

 

- Puxa...rena, eu já te guardo no meu peito,

Vendo a tua mais fiel preocupação,

Entretanto, só te guardarei direito,

Se instalar o teu amor no coração.

 

E o amor que eu conheço não tem forma;

É essência cristalina, ele é composto

Da alegria que irmana e que transforma

Cada dor num riso solto em cada rosto.

 

Quando estavam conversando, eles notaram

Uma estrela que indicava um só caminho,

E a seguir, mais dois bichinhos se juntaram

Ao passeio: uma vaquinha e um burrinho.

 

- continua -

 

Essa estrela indicou um ambiente

Expressivo, inundando-o de luz

- Este, rena, é o amor que a gente sente,

Celebrando o nascimento de Jesus.

 

No presépio, todo o grupo embevecido,

Inclusive a rena maravilhada

Dava à cena, mais um novo colorido

E a noite se tornava mais dourada.

 

Eram luzes de uma árvore tão linda

Que piscavam sobre aquela arquitetura

Que tornava-se expressiva mais ainda

Sob os olhos que a miravam com ternura.

 

 

Era apenas o olhar de um menininho

Inventando uma história original

Onde a rena e o amigo carneirinho

Festejavam o seu dia... de Natal.

 

...

 

 

 

MEDALHA DE PRATA: 

 

ANTÓNIO BOAVIDA PINHEIRO (LISBOA - PORTUGAL) - JESUS TAMBÉM FOI CRIANÇA

 

Jesus também foi criança…

 

Foi Jesus também criança,

Criança mui especial,

Que nos veio trazer a esperança

Nessa noite de Natal…

 

 

Criança que aqui viveu,

Entre os homens, vejam bem,

Do Céu à Terra desceu,

No Presépio de Belém…

 

 

Como a criança quero ser,

Ver o Mundo sem maldade,

Para nele se viver

Com Paz e Fraternidade…

 

 

 

VICÊNCIA MARIA FREITAS JAGUARIBE (FORTALEZA - CE) - REFÉM DO NATAL

 

Refém do Natal

 

Já não me faz feliz o Natal.

Me sinto refém dos presentes

Ofertados e recebidos.

Me sinto presa do clima natalino

Que cai sobre mim

— Fardo selado e endereçado.

 

O peso do Natal não se pesa

Na balança em que se pesa a carne.

O peso do Natal pesa-se na balança da alma

Como não se pesa o peso da ausência.

Como não se pesa o peso do desamor.

É um peso que se dissimula,

Que se esconde dos olhares perscrutadores.

E que fala do tempo perdido,

Dos amores traídos,

Das ilusões destruídas,

Da felicidade sequestrada,

Dos amigos ausentes,

Dos sentimentos desprezados.

 

Mas, enquanto dura o Natal

— Que a cada ano dura mais —

Vai-se usando a máscara

Que protagoniza a farsa natalina.

E vai-se vivendo tão impregnado

Pela farsa e pela máscara,

Que ao rosto adere,

Que se passa a acreditar

Na magia e no milagre do Natal.

 

E acha-se impossível

Não se ser feliz no Natal.

 

 

 

MEDALHA DE BRONZE: JOSÉ WARMUTH TEIXEIRA (TUBARÃO - SC) - TRISTEZA E ALEGRIA

 

TRISTEZA E ALEGRIA

 

Por José Warmuth Teixeira

 

“Querido Papai Noel,”

estava subscritado

num envelope e papel,

na nossa porta deixado.

 

“Eu moro em casa alugada.

Meu pai só toma cachaça,

minha mãe é empregada,

dificuldades só passa.

 

Só não nos falta a comida,

simples, de bom paladar.

Minha roupa está cerzida,

não dá mais p'ra remendar.

 

No Natal queria usar

um vestidinho novinho.

Se você puder me dar...

Sei que você é bonzinho!

 

Se eu ganhar este presente,

eu vou por você rezar,

por ter ajudado a gente,

felicidade nos dar.”

 

E nesta noite dourada,

para a ceia e o presente,

uma criança encantada

só lamenta o pai ausente.

 

Entre os mimos ofertados

nesta noite de Natal,

para a menina, doados

um novinho enxoval.

 

E foi grande a emoção

por poder o bem fazer.

Massagem no coração,

alegria e bem-querer.

 

 

 

NA CATEGORIA “PROSA”

 

 

MEDALHA DE OURO: ALCIONE SORTICA (PORTO ALEGRE - RS) - TRAPALHADAS DO PERU - O ELO PERDIDO

 

Trapalhadas do peru - o elo perdido

 

Naquele final de ano minha esposa viajou. Iria passar o Natal e Ano Novo em NY e fez mil recomendações de como preparar o tradicional peru, tarefa então sob minha inteira responsabilidade. Assim, na ante-véspera, descongelei o bicho, retemperei, e fiquei aguardando o momento de levá-lo ao forno. Nisso, uma idéia brilhante. Por que não mandar assar o galináceo fora, numa época em que se vêem assadeiras a gás por toda a parte? Pouparia toda aquela sujeirada e calor sufocante na cozinha. E, assim sucedeu. Levei a iguaria num daqueles assadores e o diálogo, após a encomenda do serviço e acerto do preço, desenvolveu-se, mais ou menos, nesses termos:

- Entre tantos perus e chester, como o amigo vai saber qual o meu, após assado? - perguntei.

- Marco com palitos e arames - respondeu ele. Exemplo: dois palitos fincados no peito e um anel de arame na perna esquerda: peru do seu Pedro. Um palito no peito e um anel na ponta da asa esquerda: chester da dona Maria. Três palitos no peito: peru do seu Agapito. E assim por diante. Acupuntura, pensei.

- O seu - continuou ele, terá um arame na ponta da perna esquerda e um na ponta da perna direita.

Piercing, foi meu pensamento seguinte. Quase sugeri a colocação de um na sambiqueira, com o fim de massagear o ego do finado. Mas fiquei na minha. E o meu mais novo conhecido marcou o bicho, ali na minha frente. Depois, molhou o dedo na saliva, folheou um caderno engraxado, as folhas cheias de orelhas, e anotou: Sr. Neto - chester, com dois arames, um em cada perna. E prendeu a caneta atrás da orelha. Fiquei pasmado com o avanço da tecnologia, chegando-se às senhas sofisticadas para identificar um peru assado. Agradeci aos céus ter vivido num pedaço de eternidade e espaço tão avançados e confesso que até pensei em jogar o meu ultrapassado computador direto no lixo. Por sorte apenas um rasgo de súbita euforia. Mas, apesar de estar embevecido, reclamei:

- O meu é peru, não chester.

Ao que ele retrucou:

- Tô sabendo! Não tem problema.

Mas teve, como veremos logo.

Na entrada da noite, fui buscar o assado e deparei-me com uma mesa atopetada de penosas de todos os tipos e tamanhos, adornadas com uma gama de elos de arame e palitos chamuscados. Chô égua! Até os perus não pararam no tempo. Acupuntura, piercing, bronzeado artificial.

- Sr. Neto, chester com dois arames - ele falou.

- Não. Peru com dois arames - respondi.

- É. Foi o que eu falei. Chester com dois arames.

E aí começou a confusão. O peru, que eu mandara assar, perdeu um dos arames no processo, e o vivente não conseguia localizar o desgramado. Procurava um chester com dois arames e eu reclamava um peru, que, pela minha observação, estava bem na minha frente, com um só arame.

Darwin, veio-me à mente. A incessante procura do elo perdido entre o macaco e o homem. E, agora, um novo elo, este de arame, atualíssimo, dificultando o liame entre um peru e seu dono.

Mas o homenzinho, com toda aquela confiança no avançado processo de identificação - cuide-se FBI - não dava fé na minha palavra. Já me acostumava com a idéia de que só comeria o peru no Ano Novo, com possíveis prejuízos, pois, segundo a superstição, cisca para trás, causando atraso no vivente que ousar consumir tal iguaria num dia impróprio.

 Até que, por final, veio-me outra idéia luminosa, a segunda da semana. Natal, talvez, e o Papai Noel já devia estar com o saco, onde deveriam estar os tradicionais brinquedos, cheio de tanta confusão, que apelara ao bom Menino Jesus para dar um jeitinho brasileiro no caso, tirando das trevas a minha pobre mente.

- Quantos chester tem para entregar? - perguntei.

Ele contou na mesa, verificou na assadeira - quente como a casa do Capeta - e falou:

- O chester tem o peito chato. São quinze no total.

- E quantos perus?

Nem precisou contar.

- Peito mais saliente. Somente um - respondeu.

- Verifique no caderno os donos dos chester - voltei a falar.

Ele verificou, um por um. Dezesseis.

- E quantos donos de perus?

- Nenhum. Todos chester.

- Encontrou o dono daquele peru ali? - retornei, indicando para a mesa.

Ele hesitou.

- Não. Só tem donos de chester.

Ô, índio duro de cabeça!

- São quinze chester e um peru. Aquele ali só pode ser o meu - apontei novamente.

Ele finalmente entendeu. Houve um suspiro de alívio, de ambos os lados. Embrulhou o malfadado, e ainda me desejou um Feliz Natal. Quando já me retirava, fez-me voltar e entregou-me um pacotinho.

- A polenta frita para o café de amanhã - esclareceu. É por conta da casa.

Que bom seria se o espírito de Natal se estendesse, sem limites de tempo - rematei meus pensamentos.

 

 

 

MEDALHA DE PRATA: VALÉRIA SÁ GIERRA (PETRÓPOLIS - RJ) - A PEQUENA VENDEDORA DE ISQUEIROS

 

A pequena vendedora de isqueiros.

 

  Tudo começou no dia de natal, e se repetiu no Ano Novo.

Havia uma menina de olhos tristes, pele enrugada pelo sol, que vendia isqueiros;

Para sustentar seus irmãos mais novos, sua mãe era catadora de lixo, e seu pai,

Um alcóolatra, porém a pequena Carolina não tinha medo da vida.

 

  No dia vinte e quatro de dezembro, ela sabia que sua barriga iria roncar mais.

Do que nunca, pois ela sabia que nesta data, as mais variadas guloseimas iriam...

Fazer parte da mesa de muitos abastados, e que ela e sua família não passavam de

Maltrapilhos desvanecidos.

 

  Carolina saiu de casa bem cedo, ou melhor, de madrugada, pegou carona em um

Trem, e foi-se embora anunciando seu produto: isqueiros.

 

   Quase ninguém comprava, e quem os que o faziam; faziam demonstrando pena, e às vezes,

 Com revolta, por ver uma criança, de apenas oito anos, solta pela cidade a vender

Mal vestida, desgrenhada, e tão pequena, alguns balbuciavam, como pode? Onde

Vamos parar?

 

   A criança destemida desceu na Central do Brasil, e dali, pegou carona em um

Trem do metrô, com rumo para o centro da cidade do Rio de Janeiro, iria tentar...

Vender os cinquenta isqueiros que sobraram, já havia vendido cinco, no trem,

Porém isso era pouco. Caiu em campo de batalha, andando apressada por entre os

Transeuntes alucinados, por irem para suas casas mais cedo, pois, afinal era

Natal.

 

   Uma mulher muito gorda e bem vestida esbarrou na garota, e impacientando-se

Proferiu dois palavrões, e depois seguiu seu gordo destino, uma loja de queijos

e vinhos. A pequena vendedora levantou-se do chão, catou todos os seus.

Isqueiros, e continuou sua trajetória, entrou numa lanchonete conhecida, por.

Seus sanduiches feitos com minhoca, e ofereceu sua mercadoria; um homem de

Óculos, muito apressado que carregava dois refrigerantes e dois sorvetes para

Sorver... ficou indignado...

 

...   Com a presença da garotinha e queixou-se ao gerente dizendo ser um absurdo

Ele cansado, com fome, depois de enfrentar um péssimo e caudaloso atendimento.

Ter agora que ser forçado a fazer caridade.

 

    O gerente que era um homem cristão, disse ao homem que por ser natal, ele

Não se sentiria bem, em expulsar aquela criancinha pobre dali, a menina estava

Em pé, próxima a um casal que a olhava curioso... a mulher perguntou qual era o

Valor de cada isqueiro, e a menina responde "UM REAL", imediatamente a mulher

Abriu a bolsa e comprou tudo. Entregou uma nota de cinquenta reais (e não quis o troco) à

Criança, que abriu um largo sorriso, e exclamou: Agora já posso comprar pães de

rabanada, ovos e fósforos para acender o fogão à lenha da mamãe e podermos cear

Com Jesus na noite de Natal.

 

 

MEDALHA DE BRONZE: VICÊNCIA MARIA DE FREITAS JAGUARIBE (FORTALEZA – CE) – OUTRO CONTO DE NATAL

 

 

Outro Conto de Natal

 

(Teresa Maria)

 

 

O sítio preparara-se para a reunião em torno da mesa do Natal. O patriarca da família — seu Afrânio —, com os filhos, netos, bisnetos e o trinetinho de quatro anos cantam Noite Feliz, acompanhados por dona Guilhermina — a matriarca — ao piano. A idade avançada dos dois e alguns sinais de demência de seu Afrânio levaram todos ao sítio. Aquele poderia ser o último Natal em que contariam com ele. Ela, não, prometia viver muitos anos ainda, e em plena lucidez.

A distribuição dos presentes põe as crianças em alvoroço: cada uma que abre o seu pacote solta um grito de alegria. Os olhos da menininha loura de sete anos brilham quando ela retira da caixa a boneca com que sonhara nos últimos meses. O menino forte e moreno de onze anos, com cara de destemido, dá um salto digno de um campeão olímpico, quando vislumbra uma bola de futebol e um uniforme completo de seu time preferido. O sorriso ilumina a figura do garoto com cara e óculos de nerd, quando segura com paixão um notebook de ponta. A menina-moça compenetrada, com uns olhos inteligentes e perspicazes, diz obrigada quando vê um ipod emergir de uma caixa envolvida por um lindo papel enfeitado com motivos natalinos. E a garotinha de doze anos, tímida, calada e observadora, abraça, com o coração batendo forte, a coleção de livros cobiçada.

É necessário que um dos filhos dos velhos use de sua autoridade para que seja recuperado o clima de paz propício à ceia de Natal. Uma das mães resmunga baixinho: Eu disse que não daria certo distribuir os presentes das crianças antes da ceia.

Sentados todos à grande e antiga mesa da sala de jantar, guarnecida com o aparelho de porcelana da Companhia das Índias Ocidentais herança de uma remota avó, escutam uma pancada forte na porta de entrada do casarão, a qual cede ao peso dos corpos de quatro homens armados. Haviam rendido o vigia e penetrado no sítio sem muita dificuldade. Dois dos homens arrancam da mesa o velho patriarca e o caçula da família, o trineto de seu Afrânio. As crianças começam a chorar, e um dos homens, o que parece ser o chefe da ação, ameaça-as com um grande e apavorante rifle. Os pais tentam levantar-se, mas são impedidos pela voz forte de dona Guilhermina.

— Calma, meus filhos, não há necessidade de violência.

E, olhando tranquilamente para os invasores, convida-os a sentar à mesa e partilhar com a família o tradicional peru de Natal. Desconcertado — pois não esperava uma iniciativa daquelas de uma anciã fraca e provavelmente amedrontada —, o líder da operação reage com uma ameaça, mas recua movido pelo olhar destemido e ao mesmo tempo suave de dona Guilhermina.

— Josefina, traga mais quatro pratos. E talheres. Temos visitas.

Os dois marginais sentam-se. Antes, porém, o chefe ordena aos dois outros que conservem presos os reféns, pois a festa não terminara.

Enquanto serve os dois, a velha senhora recomenda aos parentes, com o olhar, que continuem a refeição. As crianças tremem ao levar a comida à boca e seus grandes olhos arredondados deslocam-se, ora para os pais ora para os bandidos. Somente a menininha que recebeu os livros não treme. Come e, de vez em quando, olha de soslaio para os bandidos. A bisa a observa como sempre e, como sempre, pergunta a si mesma: Qual é o mistério desta menina? Servida a sobremesa, a dona da casa tenta levantar-se, mas é tolhida pelo bandido, com a ameaça do grande fuzil. Ela pede calma e diz que só quer que os dois outros homens ceiem.

— Fiquem todos sentados. Ninguém se atreva a fazer o mínimo movimento, do contrário, as crianças serão as primeiras vítimas. E nós não queremos matar ninguém. Estamos aqui somente para pedir emprestado — e os olhos do bandido brilham de ironia — o que sobra de vocês e falta a nós. — E vai com o companheiro render os dois outros bandidos, que conservam presos o velho e o menino. Terminada a refeição, dona Guilhermina, com a calma que consegue estampar no rosto, pede ao líder do bando licença para falar:

— Meu filho, você pode levar tudo o que precisar. Tudo o que quiser. Mas nos deixe terminar o ritual do Natal, que repetimos há anos. Saborearemos alguns cálices de licor e, depois, leremos uma passagem da Bíblia. E encerraremos a noite com uma sessão musical.

Os quatro bandidos se entreolham durante alguns segundos. Finalmente, o chefe avisa a dona Guilhermina:

— Que seja breve. Enquanto isso, as empregadas da casa acompanharão os rapazes na busca de joias, de dinheiro e objetos de valor. Dê a senha do cofre — sei que têm um — para que façam o serviço enquanto assisto à baboseira de vocês.

Dona Guilhermina, ela mesma, entrega a chave do cofre, juntamente com um pequeno pedaço de papel onde está escrita a senha, e vai pegar os pequenos cálices e três garrafas do licor, receita secreta de sua avó, que a recebera de outra avó em uma época muito distante. O licor vai, aos poucos, desanuviando o semblante dos homens e diminuindo a ansiedade das mulheres e das crianças. Quando dona Guilhermina, que bebera muito pouco, pega a Bíblia, vê as criadas caminhando na frente dos outros bandidos, que puxam três malas pesadas e se aproximam do grupo. Fecha a Bíblia e ordena aos criados que lhes sirvam o licor. Só então, senta-se em sua cadeira de balanço e lê o Evangelho de Lucas: Naquele tempo, falou Jesus aos seus discípulos: “A vós que me escutais, eu digo: Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam, e rezai por aqueles que vos caluniam. Se alguém te der uma bofetada numa face, oferece também a outra. Se alguém te tomar o manto, deixa-o levar também a túnica. Dá a quem te pedir e, se alguém tirar o que é teu, não peças que o devolva. O que vós desejais que os outros vos façam, fazei-o também vós a eles”. A essa altura, a menina dos livros, que não tira os olhos do marginal, percebe nele certa inquietação: o homem aperta uma mão contra a outra como se aquele gesto pudesse disfarçar a emoção que o ameaça. A garota deixara de acompanhar a leitura do Evangelho, para observá-lo. Mas a voz da bisa, que de repente se torna mais forte, a faz abandonar seu posto de observação: “Se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Até os pecadores amam aqueles que os amam. E se fazeis o bem somente aos que vos fazem o bem, que recompensa tereis? Até os pecadores fazem assim. E se emprestais somente àqueles de quem esperais receber, que recompensa tereis? Até os pecadores emprestam aos pecadores, para receber de volta a mesma quantia. Ao contrário, amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai sem esperar coisa alguma em troca. Então, a vossa recompensa será grande, e sereis filhos do Altíssimo, porque Deus é bondoso também para com os ingratos e os maus.” De vez em quando, a menina volta a olhar para o assaltante e deixa escapar um sorriso enigmático e quase imperceptível. “Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados. Dai e vos será dado. Uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante será posta no vosso colo; porque com a mesma medida com que medirdes os outros, vós também sereis medidos”.

Só mesmo a menininha tímida que ganhara os livros observa o que acontece com o chefe dos bandidos. Por falar, muito pouco ela costuma ouvir a linguagem das expressões faciais e ver além das palavras. Aprendera, assim, apesar da pouca idade, a entender o comportamento das pessoas e até a prever-lhes as mudanças. Assim, percebeu como, à medida que a bisa lia a comovente passagem bíblica, o homem ia-se sensibilizando. Agora, vê-lhe o branco dos olhos adquirir uma cor avermelhada; observa-lhe as mãos tremerem, quando ele as leva ao rosto, para disfarçar os sentimentos. E, principalmente, entende o significado daquelas reações que passam despercebidas aos outros membros da família, preocupados com o resultado da invasão criminosa na paz do Natal.

Portanto não se surpreende quando o homem se levanta, chama os companheiros, a quem ordena que deixem as malas no lugar onde estão, vira-se para a velha senhora, deseja-lhe feliz Natal, abre a porta e sai, seguido dos outros três. Enquanto isso, toda a família, com exceção de dona Guilhermina e dela própria — a menininha tímida —, deixa-se ficar no lugar onde está, parada, entre apavorada e perplexa.

A garota dos livros, que já lera muitos contos de Natal, acha que aquele é mais um milagre natalino, que poderá, um dia, transformar-se em outro Conto de Natal.

 

 

GILBERTO MADEIRA PEIXOTO (BELO HORIZONTE – MG) – O MILAGRE DA VÉSPERA DE NATAL

 

O MILAGRE DA VÉSPERA DO NATAL (1)

 

Pseudônimo GIMPE

 

Outono de 1914, final do mês de novembro; eu morava em uma aldeia situada entre Bobruisk e Smolensky, um lugarejo não muito longe de Moscou, onde atuava como médico.

Certa noite, tive um sonho inexplicável; presenciava uma terrível tempestade em uma manhã em que a vila aparecera densa e sombria. Chovia muito. As bátegas de chuva rufavam nos telhados escuros e nefastos dos casebres, furiosas como fosse o dilúvio bíblico. Lá fora, pelas trilhas, o aguaceiro golfava em massa, encharcando tudo e escorrendo pelas ribanceiras, invadindo brejos e pântanos, alagando estradas e enchendo os riachos.

Eram mais de oito horas da manhã e a noite ainda pairava no céu. A ventania insuportável descabelava as copas das árvores daquela paisagem melancólica; embora um sonho, a ansiedade invadia-me.

 Quem se atrevesse a ir pelas vielas e olhasse as moradas sombrias, ao açoite da chuva embaraçada pelo vento, notaria a luz lúgubre e plangente, a bruxulear de alguma lamparina sentinela que se esforçava para não se extinguir.

No sonho, vi uma mulher que se debatia tentando se libertar da corredeira das águas pesadas de um regato, implorando ajuda; e uma menina, cabelos ruivos despenteados, embaraçados, roupa clara e molhada deixando ver a silhueta magra de seu corpo, corria junto às margens, tentando com muito esforço não perder essa mulher de seu campo visual. Apressei-me para ver a cena, mas não conseguira me aproximar daquela mulher que suplicava auxílio.

Acordei e senti não ter atingido meu intento: acudi-la.

Mas, o tempo passou e não conseguira interpretar esse sonho.

Permaneci naquela vila, até que em dezembro de 1916, justamente no final do outono, numa daquelas frias manhãs, já se aproximando o natal, creio ter surgido uma luz, uma clara interpretação daquele sonho, que narrarei.

Faltavam dois dias para o natal; já havia raiado o dia, eram nove horas da manhã e a neve caprichosamente caia; o sol teimava-se em não se exibir; ninguém pretendera enfrentar o rude frio, e o silêncio parecia dominar aquela paragem.

De repente, ouvi batidas em minha porta e perguntei, quem é? Uma voz fraca e fugidia respondeu: sou eu, Catarina. Solicito socorro para minha mãe Tatiana que está muito doente, sozinha e à morte. Ela mora a duas milhas daqui.

Abri a porta e me surpreendi com a figura de uma pobre criança com seus onze anos, ruiva, cabelos desordenados, pálida, mal agasalhada e marcada pelos maus tratos que a pobreza determina.

Decididamente imaginava que já a havia visto, mas não me recordava de onde e quando. 

Perguntei à menina o que havia com a sua mãe e ela respondeu-me prontamente:

Está muito aflita, com falta de ar e parece espumar pela boca, como se houvesse bochechado com sabão.

Não tivera dúvidas, julgara tratar se de possível insuficiência cardíaca e edema agudo de pulmão. Tomei meus instrumentos e os medicamentos necessários. Vesti meu

casaco e juntamente com a menina fomos caminhando pelas sendas brancas cobertas de neve que deixavam ali impressas e bem marcadas as nossas pegadas.

Andamos cerca de meia hora e chegamos a um casebre que coberto de neve, mostrava janelas e portas fechadas e um ambiente soturno pelo sussurro monótono do vento na folhagem; triste imagem dum local para quem veio prestar socorro.

________________________________________________________

(1) Conto ficção presumindo fatos de Serguei Turguenev: um médico russo.

 

A menina contornou a humilde moradia e se dirigiu aos fundos da mesma e não mais a vi.

Naquela solidão, tive medo e senti vontade de retornar, entretanto, coeso na profissão refleti e deduzi, tenho que viver os dramas, incertezas e as emoções que a medicina exige; cogitei apenas em me agregar àquela que sofria e que suplicava caridade e apoio, porque acreditava no socorro de alguém.

Bati algum tempo e, não acudindo alguém de dentro, abri a porta, sem mais cerimônia, e ao entrar no casebre notei-o silencioso.

Receoso, deparei-me com a mulher enferma em um leito desarranjado, pálida, mal cuidada e despenteada, fácies de profundo sofrimento, cansada, espumando pela boca, edemaciada, quase anasarca, e sem poder dizer palavra.

Constatei ser ela a mesma mulher daquele sonho de tempos atrás. Questionando a ausência dos membros da família, acabrunhada disse-me que seu marido Pioter Iretzky foi averiguar a atuação do filho Wladimir, de 18 anos que se encontrava nas operações militares de Smolensky, a serviço dos stalinistas.

Não pude conversar muito, não houve tempo, pois o meu propósito era medicá-la, salvá-la e conceder-lhe boas condições de vida, o que fiz com bastante atenção e cuidado, aplicando cuidadosamente os medicamentos para conseguir esse intento.

Sentei-me em uma velha cadeira de madeira clara, encardida pelo uso e maus tratos e imediatamente lhe disse: Dona Tatiana, creio que nós já nos vimos, concorda?

Não, respondeu ela; nós não nos conhecemos e estou admirada como o senhor sabe o meu nome e como veio ao meu socorro e encontrou a minha casa?

Foi sua filha quem me trouxe, disse-lhe eu; aquela linda menina de olhos azulados e cabelos ruivos, a Catarina!

Alarmada argumentou, doutor não brinque comigo; minha Catarina faleceu em conseqüência de uma pneumonia, há dois anos.

-Oh, argumentei, não é possível!  

Trêmulo e sem saber o que dizer, a respiração ofegante erguia-me sobre o peito a frontaria de minhas vestes quando respondi, talvez tivesse sido ela, uma enviada de Deus.

Entendi finalmente o meu sonho e pude afirmar com exatidão que esta mulher esteve naquele sonho acompanhada dessa menina...

Contei para ela o sonho havido e notei que se emocionou sobremaneira, pedindo-me que orasse para sua falecida filha que julga tê-la ajudado nesse árduo momento e disse-me: Tenho certeza que Deus, ao enviar o doutor, usou a minha pequena falecida Catarina como Seu instrumento de misericórdia, assim como ilumina também a senhora Natasha, minha vizinha que todos os dias serve-me as refeições, enquanto estou doente e meu companheiro está ausente.

Ao me despedir, ofereci-lhe meus préstimos e sugerindo: quando necessitar é só pedir a Dona Natasha para avisar-me.

Ainda assustado, fui aos arredores da casa, e pude comprovar com minúcias as marcas dos pés deixadas pelas pegadas da menina, na neve, contíguas às minhas; não encontrei mais a menina que me conduzira, pois suas pegadas remataram-se ali junto à porta (de saída) dos fundos da casa.

Relacionei a aflição daquela mulher evidenciada no sonho com o real sofrimento que lhe causou a recente doença.

Olhei para o alto, emocionado chorei, agradeci a Deus e constatei o milagre da véspera do NATAL; orei em agradecimento ao Deus menino, o Rabi da Galiléia.

Retornei emocionado à minha residência, ainda seguindo as pegadas quase apagadas na neve.

 

Era verdadeiramente um milagre da véspera do Natal.

 

topo