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OBRAS VENCEDORAS II TROFÉU FALANDO DE AMOR
OBRAS VENCEDORAS II TROFÉU FALANDO DE AMOR

TEXTOS VENCEDORES DO II TROFÉU ARTÍSTICO-LITERÁRIO FALANDO DE AMOR

 

 

(ESCLARECIMENTO: COMO SEMPRE, NESTE ARQUIVO SÓ APARECEM OS TEXTOS QUE ACARRETARAM CONQUISTA DE MEDALHAS E DO TROFÉU. EM BREVE NESTA MESMA COLUNA SERÁ PUBLICADO O E-BOOK COM TODOS OS TRABALHOS ENVIADOS A CONCURSO).

 

 

 

 

*********CATEGORIA POESIA*********

 

 

 

MEDALHA DE OURO

 

 

 

RUI TOJEIRA (MARINHA GRANDE – PORTUGAL)

NO SILÊNCIO MAGOADO DAS FLORES

 

(Naquele inicio de tarde morna, apesar do sol envergonhado, num lugar que sempre me provoca estranhas sensações, despertou-me à atenção aquela figura por entre o jardim de pedra daquela terra adormecida… Senhor distinto, olhar sereno, com uma idade em que os sulcos do tempo se começam a notar e uma calma de quem parecia ter todo o tempo do mundo. Fato escuro, impecavelmente cintado, ao pescoço um laço bordeaux elegantemente aprumado e a florir na lapela, a contrastar com o semblante, a alegria do despontar da primavera num bouquet de gipsofila entrelaçado em flor de amendoeira… e estava ali, sentado na lápide ensurdecida em confidência com a sua companheira de uma vida.)
__________________________________________________________

 

“ Gostar de ti, é um lugar dentro de mim que nunca morre…

Não saberei nunca andar sozinho e tu bem sabes,
fazes-me falta à firmeza dos meus passos,
ao sentido que o meu viver já não sabe percorrer.

Procuro-te na angústia que o tempo me traz,
dói-me esta falta de ti, tenho saudades de nós,
daquele aconchego que nos abraçava os silêncios, sabes? 
Saudades de te sentir, saudades da tua voz …

Houve um tempo em que disseste que andava cego por ti…
eu sorri e nunca cheguei a dizer-te, mas desde cedo percebi,
que não era verdade, nem poderia ser… juro por Deus, 
pois se eras tu, precisamente, que eras a luz dos olhos meus.

(Meus olhos que são agora apenas, duas manchas queimadas pelo sal.)

Dizem que o tempo nos ajuda a superar, a saber lidar com a perda…
Seguramente que eu não sou assim tão forte, 
perdoa-me amor, mas por mais que tente, não consigo ser diferente, 
não me consigo abstrair, nem sair deste desnorte…
É esta magoa, esta saudade, este ter-te sempre em mim 
e saber, que jamais te poderei voltar a ter, aqui.

Ainda fico estarrecido, sempre que chego aqui, a este umbral,
esta passagem que dá para essa tua misteriosa última morada.

Tu conheces-me, sabes que sempre fui fraco para estas coisas…
Mas agora é diferente, já não sei o que sinto ou em que devo pensar
e a minha mente não esquece nunca este lugar que me está sempre presente.

Reconheceste este meu fato, meu amor? Sabes porque o trago vestido?
Sim eu sei que há muito me não servia, agora estou outra vez mais magro, 
mas não precisas de te preocupar, dizem que estou bem assim.

Sim, é verdade, não me esqueci, faz hoje quarenta anos que casamos,
que unimos em sacramento os nossos destinos e eu nunca me arrependi.

Tantas aventuras que passamos, tantas alegrias que vivemos,
e as dificuldades que vencemos sem nos agarrarmos à amargura,
porque sempre nos apoiamos no amor e nos envolvemos de ternura.

Somos agora parte indivisa um do outro, apesar de tudo…
Levaram-te de mim e eu fiquei para carregar comigo este castigo,
até chegar a estar verdadeiramente morto para este mundo.

Por vezes, sinto que as nossas almas se abandonam ao desconhecido 
e se fundem e amam novamente numa grata partilha de memórias,
aconchegadas num bailado que deixa o dia mais bonito de tão embevecido.

A casa continua vazia, emudecida, suspensa neste fado inacabado,
por vezes quase que te vejo, que te toco, que sinto o teu cheiro,
mas tu estás apenas em mim, no meu peito, no meu pensamento,
na solidão que me une a ti, que me assiste os dias e me apazigua as noites,
porque sei, que ainda me esperas nessa eternidade, onde jamais te perderei.”

________________________________________________________

(Por fim, tirou da lapela o raminho de gipsofila entrelaçada em flor de amendoeira, 
exactamente igual ao que levara no dia do casamento e aconchegou-o carinhosamente na campa, junto à cabeceira.)

 

 

CARLOS EDUARDO POMPEU (LIMEIRA – SP)

 

ANIMISMO

 

 

A mansão feita de pedras,
por séculos espreitou o mar,
impassível a tudo e a todos,
como se o tempo
não houvera a passar.

Lembrança de crianças,
que já vão longe:
a mesma mansão,
as mesmas pedras
e o mesmo mar que, sabíamos,
guardavam um segredo
e por ele ficamos a esperar. 

Mas nossa vida,
errática como o vento,
a levou o tempo e, com ele,
foram os sonhos, as ilusões
e o segredo da mansão
ainda a desvendar.

Quem me dera voltar
daqui a mil anos, para saber
o que os séculos já sabem:
que tudo na vida tem um fim
e mesmo a mansão secular
cansou-se da frieza das pedras,
ganhou sentimentos
e se fez ao mar.

 

 

MEDALHA DE PRATA

 

 

EUNICE GUIMARÃES (ARACAJU – SE)

 

LEMBRANÇAS DE UM AMOR

 

 

 

Sob um manto,

De brilhantes cadentes,

Segredos, aos céus eu confesso...

Lembranças de um amor,

De outrora vivido...

 

Como cordas do violão,

Dedilhadas com maestria,

Meu corpo vibra,

Ao toque suave do vento...

Trazendo com ele,

Lembranças de um amor,

De outrora vivido...

 

Revivo as quimeras do amor,

Que a muito se foi,

E que para sempre, no negrume da noite se perdeu.

Deixando apenas saudades e...

Lembranças de um amor,

De outrora vivido.

 

 

 

FLÁVIA VASCONCELOS DE BRITO (MACAÉ – RJ)

 

Decifra-me ou te devoro

 

 

 

Conjuga-me como infinitivo verbo

Página em branco aberta em rútila flor

Sem pretéritos imperfeitos

Apenas arrombo da palavra sussurrada com alarde

 

Teu signo solar reincidente na minha cama arde

Espaçamentos preenchidos, sonoras reentrâncias sensoriais

Na entrelinha desfia o seu aroma

Permita-me o roçar da sua boca em eternas reticências

 

E neste íntimo momento de amor

Remanesce da noite o dia

Tece transcorrendo a tarde

Seu peso leve debruçado em minha hora

Corpos híbridos transbordam as imensidades do agora.

 

 

 

 

MEDALHA DE BRONZE

 

 

 

 

ROSSIDÊ RODRIGUES MACHADO (SÃO VICENTE – SP)

 

                       

 

 

ROZELENE FURTADO DE LIMA (TERESÓPOLIS – RJ)

 

Tão de repente...

 

 

De todas as experiências

Que já tive na minha vivência

A melhor foi ter te encontrado

Tão de repente, tão inesperado!

Só tivemos o primeiro encontro

Frente a frente em confronto

Teus olhos poliram o brilho

Do meu triste olhar andarilho

O calor de teu corpo tão perto

Tudo tão matemático, tão certo

Tuas mãos tocaram minha tez pálida

Iluminando a nossa volta uma ourela cálida

Tua boca despertou afogueada labareda

Chamejou como o deslizar de um fio de seda

Na batalha pelo tempo, tão pouco

Na luta pelo amor, tão louco

Tão completo como noite de luar

Tão intenso como o mar

Incontáveis minutos, horas

Ontem, hoje, sempre e agora

É alimento, é remédio, é fonte

É enigma entre nós, é a ponte

Que me leva a carregar onde for

Este enorme pequenino grande amor

 

 

 

ALFREDO DE SOUSA PEREIRA (ENTRONCAMENTO – PORTUGAL)

 

POR AMAR DEMAIS

 

 

 

 

Porque eu amei de mais e fui submisso,

Não parei p’ra pensar ou coisa assim;

Porque não pensei, ou talvez por isso,

Pequei ao aceitar o que p’ra mim

 

Foi a minha mais dura realidade.

Pensei ser o amor suficiente

P’ra enfrentar qualquer contrariedade,

Sem me aperceber que nem toda a gente

 

Pense como eu ou a maioria;

Olvida em regra todo o sentimento

E, procedendo da forma mais fria,

 

Não queira pensar que em qualquer momento

Possa provocar, a quem não devia,

O mais angustiante sofrimento.

 

 

 

 

 

 

*********CATEGORIA PROSA*********

 

 

 

MEDALHA DE OURO (E TROFÉU)

 

 

 

HELION VERRI (SÃO PAULO – SP)

 

 

 

A PUTA QUE VAI PARA O PARAISO SÓ POR AMOR...

 

 

 

Ainda jovem em minha terra natal e no bairro que morei residia um vizinho que  recebia diariamente os cuidados especiais de sua família,de alguns poucos amigos também e vivia precariamente.Era esse vizinho totalmente paraplégico de nascença. Dependência,em tudo.  Seus ossos atrofiados.  Era carregado –diariamente- até a calçada- pelos seus- para se distrair e ver o movimento de pessoas,gentes e carros, na calçada da sua rua,diante da casa,até o sol se por.Essa era a vida do infeliz.Nada mais.Tudo sem grandes emoções.

Esse era seu único lazer.Dependência total de tudo e de todos.Imperava aquela pobreza digna,naquela família,mas antes vinha o amor.

Um dia aparentou estar doente,parecia até grave e uma comitiva - família e vizinhos,todos acompanharam o infeliz até o médico para ver o que acontecia.Seus olhos perdiam com os dias o  brilho e uma preocupação tomou conta dos circunstantes.O vizinho como não andava foi levado então de carro emprestado pelos amigos até um consultório médico, com alguns familiares.

Depois de horas de consulta, a sós,o médico chamou o responsável da grei e receitou um remédio inesperado,inusitado ao paciente: sexo/amor.                                  Era o único remédio para o paciente.Nada mais que isso.

Agora,(indagava-se)como um homem daquele totalmente atrofiado de nascença conseguiria tal proeza?

Fazer sexo com quem? Se nem de pé ficava e nem se levantava da paupérrima espreguiçadeira de lona já  bem estragada,esgarçada e manchada pelo permanente  uso diário?

Quem e qual a mulher que se motivasse a ter alguma relação sexual com um homem totalmente atrofiado pela impiedosa natureza e infeliz destino?

Um problemão.Missão quase impossível,numa década de 50.

Um dos nossos teve a(brilhante) idéia então de visitar a zona do meretrício da cidade e tentar o impossível: um convite incomum para esse desgraçado,desvalido e  infeliz,que necessitava atender uma determinação médica.Necessitar um remédio sexual...Terapia derradeira.

Depois de negociações e tratativas longas na zona do meretrício, uma das mulheres- entre várias consultadas- aceitou,finalmente, o desafio...Aplacar o desejo do  infeliz.Piedosamente.O preço?                       Nenhum.Nenhum mesmo.Embora o programa ou missão fossem inusitados,difíceis e extravagantes para a desprendida e desapegada puta.Houve generosidade!Desprendimento!Sintonia com os deuses do amor e o infinito.

 Na época não existia,nem se imaginava a palavra motel e jamais se ousaria em “casa de família”.Dentro de casa- nem pensar,tal sandice pois esse encontro sexual somente era,no fundo, uma fornicação, “contra a moral e os bons costumes” na época... A solução(genial) foi levar  de carro emprestado,numa estratégia extravagante,  o casal improvisado atrás de um cafezal,fora da cidade,levando-se uma lona como cama,no chão bruto.Terra mesmo.Tudo a céu aberto.Para o dito e feito.

Tudo resolvido e lá se preparou o “plano de emergência”  da necessária profilaxia médica para aquele que jamais tivera uma mulher- em sua vida- a sua frente,em condições de se realizar sexualmente.Seria a primeira vez...Assim foi,com aquela emoção.O rosto do paciente demonstrava antecipada vitória pela vida.

Os amigos ficaram de longe  e mesmo assim  ouviam-se ruídos,gemidos. A sonoridade de tudo e a turbulência de um primeiro encontro,doido, tresloucado,por certo jamais esquecido,entre pés de cafés floridos,em local ermo e silencioso.Mesmo assim,os pássaros –ante o inusitado- também se agitaram,denunciando uma invasão territorial.

Depois de horas, o ato e o fato  sem que o sol mudasse sua trajetória,tudo se acalmou e se quietou,naquele momento especial de amor e sexo.

Logo após,a   benemérita puta  apareceu solerte,íntegra e voltou ao seu  mister,dever de ofício,com naturalidade,como se nada tivesse ocorrido. Um largo sorriso e encanto.Por outro,o rosto do paraplégico já era outro- triunfante- ao ser levado para casa....

Voltou- novamente- a sorrir.

Assim,o paciente- conforme determinou o doutor- foi suficientemente  “medicado” e o brilho voltou- em definitivo-  aos seus olhos, já cheios de vida.

Estava,pois,o vizinho totalmente curado.

Alguém comentou: essa puta um dia vai para o paraíso...

Abanei a cabeça,concordando:                              Vai com certeza,e por amor!!!

 

 

 

 

MEDALHA DE PRATA

 

 

FERNANDO BEVILÁCQUA (RIO DE JANEIRO – RJ)

 

NOVAS BUSCAS

 

 

 

Refletir sobre os caminhos do mundo deveria ser obrigação de todos.

Não estaremos sendo iludidos, com as chamadas conquistas da humanidade? Nem tudo, logicamente, pode ser analisado à luz de um pessimismo arrasador. Todos reconhecemos entre tantas conquistas, o valor das vacinas, por exemplo, livrando crianças de sofrimentos e de morte precoce e do desespero de mães. Mas mesmo contando com o prolongamento da existência, terão as crianças que não morrerão de varíola ou paralisia infantil, todas (e como merecem) futuro pintado além do preto e branco? Quantas abandonarão o plano existencial abatidas pela fome, pelas guerras, pela crueldade dos atentados, fruto de estúpidas crenças religiosas, pela surpresa de uma “bala dirigida”, pelas drogas?

 É preciso despertar e cotejar o “conforto” (inegável e não desprezível) que os chamados avanços científicos e tecnológicos proporcionam, com o verdadeiro aprimoramento das sociedades humanas. Conforto para o suporte do dia-a-dia do mundo contemporâneo é desejável e inevitável, mas se bem pensarmos, as facilidades têm afastado os indivíduos da valorização das conquistas seladas com o suor do rosto. Estão aí a “transpirar” por nós os micro-ondas, os processadores de alimentos, as máquinas de lavar e outros inúmeros “serviçais”. É a era da facilidade. Será da felicidade?

A ciência e a tecnologia são “entidades” de raro poder de sedução. Cativam e hipnotizam, deixando míopes aqueles que aprisionam. Como não ambicionar uma TV de plasma ou de cristal líquido ou máquina fotográfica digital? A coisa é tão maquiavélica e cruel que, se você não se submeter às imposições dos mercados e não se “atualizar”, vai correr o risco de não mais assistir televisão, ouvir música ou fotografar. Não adianta se rebelar – você vai perder a batalha. Ou se torna um “consumidor engajado” (e endividado) ou um dinossauro da era moderna.

Hoje, coisas que tenham poucos botões têm vida curta. Logo são condenadas a virar sucata.

Esforços e investimentos bilionários são destinados à descoberta e à produção de novas e sofisticadas armas de guerra, especialmente pelos países que propugnam pelos armistícios e cessar fogo. Quanta ironia! Recentemente a NASA anunciou, com orgulho pirotécnico, a descoberta de água em Marte e num satélite de Júpiter. E a que custo? Muito bem. Não se sabe, a curto prazo, quais os possíveis benefícios futuros que uma investigação e consequentes descobertas proporcionarão, mas pergunto: de que se beneficiarão as crianças e seus irmãos dos países pobres, que morrem antes do sarampo, com tais descobertas? Muitos dependem de água em seus quintais; não podem esperar pelas águas cósmicas. O achado dessa água sideral, a princípio (a sede tem pressa), só prova a hegemonia americana no desvendar do cosmo. Que tal ceder um pouco dos dólares gastos nessa descoberta para alimentar famintos no mundo?

A febre de produzir coisas novas e cada vez mais caras atropela e abafa a reflexão sobre suas necessidades e sobre os valores não materiais que conduzem (ou deveriam conduzir) os homens e as sociedades. Crescer às custas de acúmulo de riquezas, produzir, dominar mercados, atrair consumidores – invade, nocauteia, estupra.

Precisamos sim, apertar certos botões de certos painéis, tais como:

Da justiça e dos juízes, para que deixem, ambos, de serem “cegos” e identifiquem, com precisão e rapidez, os fora da lei, aplicando-lhes, com rigor, as penalidades prescritas;

De professores competentes, que não finjam ensinar e não apenas adestrem seus alunos, mas os eduquem, imprimindo-lhes valores comportamentais elevados, incentivando-os ao estudo, ao aprimoramento humano e ao pensamento reflexivo;

De médicos que ultrapassem o simples “exercício profissional” e professem, de fato, sua missão, examinando corpos e mentes das pessoas, e não apenas verificar resultados de análises laboratoriais;

De policiais confiáveis, que nos recebam de mãos limpas, prontos para oferecer proteção e socorro, e não de armas em punho;

De políticos que efetivamente se dediquem à “arte de fazer o melhor”, limpando seus atos e ações da lama que os envolve. Que possam merecer o respeito dos cidadãos, que ultrapassem a mesquinhez de apenas pensar nas próximas eleições e passem a visar às futuras gerações;

De pais, mães e famílias que se esforcem na busca pelo acerto na condução de seus filhos, com base na flexibilidade e na conciliação com o possível, mas abolindo a tolerância irresponsável.

Enfim, estão o mundo e a humanidade carentes de condutores sensíveis, equilibrados, isentos de radicalismo e com outros propósitos além e acima dos índices econômicos. Precisamos dessas pessoas e com urgência. É preciso, embora não seja fácil, encontrá-las. Estamos todos cansados de caudilhos, guerreiros sanguinários, exploradores, farsantes, demagogos e “iluminados paranóicos”.

Que tal a receita de pensar com “menos ciência” e mais amor e respeito pelo planeta e seus habitantes, quase todos pouco abastecidos de solidariedade e de sangue, só que este no interior dos vasos a ele destinados, e não extravasado no solo por guerras, atentados e violência urbana.

Quanta desvalorização da vida!

 

 

 

VALÉRIA GUERRA REITER (PETRÓPOLIS – RJ)

 

O GUARDANAPO.

 

 

 

   De manhã cedo Laura saiu com seu pai para fazer compras, ela tinha um humor bem especial: Extenuada do dia anterior de trabalho no escritório, ela só levantou mais cedo porque tudo havia acabado na dispensa.

 

   Já seu Otávio era o retrato da alegria matinal, animado pelo sol de outono ele já havia levantado da cama duas horas mais cedo que a primogênita aborrecida; ele era um homem bastante otimista, mesmo morando no Brasil: Que a advogada abominava como nação,país, estado.

 

   E sob forte tensão inicia-se o tour que ambos farão ao Supermercado da região paulista, na cidade agora tão transformada pelos anos 2.000; pai e filha depois de um café da manhã recheado não só de bolos, pães, queijos e frutas, mas também por reclames da "senhora reclamona" se dirigiram a garagem da casa para pegar o carro, foi quando a mulher de 33 anos, alta, loira, e que usava um óculos escuro maior que seu rosto miúdo: Escorregou e caiu patinando próximo ao jardim...

 

    Seu olhar faiscava descontentamento, e não tardou para que seu Otávio a acudisse preocupado - Filha você se machucou? e ela retruca maldizente - O senhor que dever verificar isso...não eu! Maldita hora que voltei para casa! devia ter continuada casada com aquele idiota do Fernando, pelo menos lá, não teria que levantar às 9 h da manhã, para fazer compras com o papai, depois de trabalhar como uma anta, num escritório...Cheio de processos ridículos, que nem dinheiro direito me darão...

 

     O olhar de seu Otávio congelou diante de tanto mal humor e nefasto entendimento da vida prática, ele então resolveu sair do salto de tranquilidade e se enfiou num tamanco português dizendo: SE VOCÊ QUER VOLTAR PARA SUA CAMA QUENTE, VOLTE! POIS POSSO MUITO BEM FAZER MINHAS COMPRAS SOZINHO!

 

     Nesse momento a dama emburrada e esburrachada, toma a dianteira, levanta do chão, sacode a poeira, de não ter tido nenhum ferimento, pega sua bolsa que está caída, e coloca no ombro, e vai rumo ao portão, a pé...

 

      Deixando seu pai na solidão do instante, ele fica inerte, ao ver a figura feminina que desvanece, sumindo na próxima esquina, ele não entende a razão para tanto mal humor, afinal a moça tivera carinho na infância, ótima educação, pais dedicados, e quando perdeu a mãe há dois anos, um apoiou o outro, e Laura não demonstrara tanta rispidez diante da vida, ou da morte, que seja, da perda: Pelo contrário superava com dignidade o episódio que ceifou a existência da progenitora: um assalto.

 

      Do outro lado da cidade, uma mulher caminha...com raiva, levando sua bolsa negra grande, onde havia um arsenal de objetos, desde batom, até sutiãs, papéis, livros, e outros bichos...Ela andava, andava, e toda a dor que sentia não passava, não a dor do tombo pueril, mas a dor da desolação, da amargura, da perda, do incômodo de viver num lugar tão hediondo, onde impera o acaso, e a imensa insegurança...

 

       Ao meio dia, a filha de seu Otávio alcança um shopping bem próximo ao seu escritório de advocacia, ela pensa em ir lá, mas resolve primeiro comer alguma coisa, e entra em restaurante, senta-se à mesa, ainda remoendo a péssima manhã que teve com seu pai, e absorta em pensamentos, ouve a voz do garçom que pergunta - A senhora espera alguém? Ela responde que não, e pede o cardápio, ele encontra seu olhar que inicia um reluzir, os olhos verdes, e os traços delicados dela chamam bastante a atenção do homem, que é forte, alto, olhos azuis, e tez morena do sol...

 

     Ela olha para seu olhar e sente um alívio em seu dia, ela faz o pedido, ele anota, e se esvai para providenciar...ela ressente sua ausência...de uma forma atípica, e se surpreende com o fato de estar experimentando tal profusão de sentidos. Ela percebe que seus óculos escuros estavam empenados da queda no jardim, e que as lentes estavam embaçadas, ela então procura um guardanapo, e não acha...chama o garçom que na verdade se chama Pedro, ele vem, ela indaga : Preciso de um guardanapo de papel, para limpar meus óculos, ele imediatamente providencia o seu desejo, trazendo as folhas branquinhas do objeto necessário ao ato dela: limpar.

 

      Ela realiza a ação de limpeza, e ao invés de comer, deixa escrito seu e-mail num dos guardanapos, colocando-o visível em baixo do saladeiro, e então sim se alimenta rápido, e vai embora...

 

       O homem acha o guardanapo com o nome dela, e o e-mail, fica perplexo, e pensa, que mulher estranha, mas guarda com carinho o objeto...mas tarde em casa, ele redige uma mensagem para ela, que recebe, já refeita na casa do pai, os dois passam a se comunicar...e marcam de sair, na próxima semana, na sexta-feira, eles se encontram no Restaurante, ela janta, ele serve, e depois ele muda sua indumentária e a leva para dançar, eles se abraçam e se  beijam, mas, ele a leva em casa, e entrega a ela um presente, e pede para que ela abra somente, quando for dormir...eles se despedem, ela adentra seu quarto, e olha o embrulho tão belo, tão elegante, e se encanta, abre, e no interior há um pano, rosa, ou lilás, ela percebe que é um guardanapo, o desmantela, e no seu interior há um punhal, sujo de sangue, e um bilhete que diz: Eis aí o sangue de sua mãe.

 

 

 

JOSEPHA SOARES BARBOSA (RIO DE JANEIRO –RJ)

 

Amor Perfeito

 

 

A ave procura o ninho onde possa se abrigar, o ser humano procura um lar onde amor possa encontrar e um coração com o qual compartilhar.

Em março de mil, novecentos e cinqüenta e seis, duas pessoas se viram numa sala de aula em uma grande empresa onde trabalhavam. Dois pares de olhos se cruzaram, os corações se aqueceram e a figura um do outro, que mexera com seus sentimentos, ficou sempre em suas mentes. Chegou assim o famoso personagem principal na vida das pessoas: sua excelência o Amor, preenchendo subitamente dois corações vazios.

Olhares, encontros, abraços, apertos de mãos, beijos e tudo o mais que envolve um romance, fazendo o frio aquecido e o calor tórrido, tornaram-se constantes entre o casal.

Estrelas brilhavam mais, a lua resplandecia linda, e de dia o sol tornava-se mais luminoso aos olhares dos apaixonados. Chuva, que importava? Eram gotas transparentes, transformadas em bênçãos aplaudindo aquele amor esplendoroso..

Na empresa onde trabalhavam, de uma seção para outra, as ordens de serviço transportavam furtivas mensagens taquigrafadas, graças ao curso que os estava unindo. Começava assim o namoro com lindas mensagens escritas com esmero, guardadas com carinho no baú do amor, até os dias atuais.

Foi marcado encontro no portão da vila onde a jovem morava. Na hora combinada, o rapaz estava parado no portão que levava a uma longa escadaria dando acesso à residência da jovem. Esta, com seu vestido vaporoso, “godet” parecia flutuar ao descer os degraus, após retocar o baton e o pó-de-arroz várias vezes, para encontrar seu amor.

Após o consentimento do namoro, pedido à mãe, pelo rapaz, a jovem tinha perdido o pai há um ano, ambos sentavam-se num banco embaixo de um caramanchão e as conversas, comuns aos apaixonados, se sucediam.

Só depois de seis meses de romance é que receberam consentimento para irem ao cinema, cujo filme até hoje marca a união dos dois. O filme era “Suplício de Uma Saudade”, e sua trilha sonora muito os emociona.

Após dois anos de namoro decidiram pensar no noivado. Primeiro passo foi comprar as alianças e o fizeram com muito carinho. Aqueles elos áureos significavam o prenúncio de uma união duradoura. Num almoço ao ar livre, no jardim da casa da noiva, o rapaz pediu consentimento ao irmão e à mãe da moça, para confirmar suas boas intenções. Teve êxito e colocou a aliança no dedo anelar direito da amada que retribuiu o gesto.

Passados dois anos, marcaram a data do casamento, dezenove de março de mil, novecentos e sessenta. A festa seria na casa da noiva, também não existiam as casas de festas com todo aparato atual.

No dia do casamento o desastrado fotógrafo chegou com antecedência e a noiva teve de arrumar-se às pressas, pois varria o quintal. Na época não existia o aparato atual de maquiagem e toda a preparação sofisticada para a data. O vestido foi colocado rapidamente, o véu, a grinalda, um pouco de baton e o pó-de-arroz Lady O noivo, após vestir o tradicional terno azul-marinho, com todos os complementos, estava impecável.

Ambos se colocaram lado a lado na sala da casa. O fotógrafo mirou sua objetiva, rodeada de lâmpadas e “clic”: olha o passarinho... Os pensamentos voavam e revoavam com a emoção que antecedia o momento decisivo na vida do casal.

Aproximou-se a hora tão sonhada, o noivo já havia se dirigido de carro para a igreja. O carro preto de aluguel, com flores de laranjeira, aguardava a noiva no portão da vila. Triunfalmente, segurando a cauda do alvo vestido, para não arrastar no chão, desceu os cem degraus, onde muitas pessoas queriam vê-la. Finalmente, chegou à igreja. Muitos convidados, parentes e amigos estavam ali presentes testemunhando o acontecimento.

O noivo, ansioso, a esperava no altar, para ela, ele era o seu verdadeiro príncipe encantado. A noiva, conduzida pelo irmão, com a pureza do branco e o perfume das palmas holandesas de seu buquet, a tiara sobre seus cabelos e o véu cobrindo-lhe o rosto, chegou ao altar soberana, princesa ou rainha daquele braço protetor que a aguardava para toda a vida.

A cerimônia teve início com as palavras do celebrante que ambos mal ouviam, diante de tanta emoção. Entretanto, o “sim” foi pronunciado com ênfase pelos dois. As promessas, as bênçãos e a troca das alianças constituíram o ápice da cerimônia. Ao suspender o véu do rosto da já esposa o então marido deu-lhe um beijo na testa que a ruborizou e os convidados sorriram. Ao término da cerimônia o casal recebeu os cumprimentos.

De volta ao lar, ao subirem as escadas da vila, de mãos dadas, as crianças da vizinhança os receberam com uma chuva de arroz, símbolo da felicidade. À noite, quando algumas pessoas haviam se retirado ambos saíram discretamente, fugitivos rumo à lua de mel.

No dia seguinte, pela manhã, viajaram para São Lourenço, Sul de Minas Gerais. Chegaram ao Grande Hotel e adormeceram, sendo despertados pelos acordes de “La Cumparsita” executada por um músico cego. Foram dias de sonho, poesia e muito amor.

A grande surpresa, em agosto, foi a notícia de que um novo ser estava a caminho para encher, de alegria, o lar do casal. Ambos ficaram exultantes, só seria conhecido o sexo do bebê quando nascesse, pois ainda não existia o exame de ultrassonografia.

A expectativa era imensa, até na dúvida da cor na confecção do enxovalzinho. Foi um grande momento a chegada do menino, em abril, que consolidou ainda mais aquele amor. Seu choro era música mais linda aos ouvidos dos pais. Eram três num só coração. Berço, fraldas ao vento no varal, talcos, cueiros, mamadeiras, eram os novos objetos da decoração da casa.

Muito gostoso usufruir as diversas fases de uma criança. Novas apreensões também chegaram para os “marinheiros de primeira viagem”. Era um resfriado aqui, uma indesejável cachumba, etc. e logo era uma maratona ao consultório do médico. Tudo faz parte da vida. Mais alguns anos e chegou a época da vida escolar, o menino só lhes trouxe orgulho.

Um novo ser se anunciou com diferença do primeiro de seis anos, o pai, munido de tinta e pincel, tornou a casa rosácea, parecendo adivinhar que o bebê seria do sexo feminino; ainda não havia a ultrassonografia. as mesmas alegrias e expectativas não tardaram, chegou esplendorosa uma menina, enriquecendo, ainda mais, a família. Eram quatro num só coração. Acompanhar seu crescimento, como o do primeiro filho, foi maravilhoso.

Com o tempo a casa onde morava a família precisava de reparos. Começou uma obra de grande porte, foi um período de muito trabalho e desgaste durante seis meses. Ela ficou pronta, bela e espaçosa, todos ficaram orgulhosos.

Nos estudos os filhos brilharam e chegaram à universidade em áreas e tempos diferentes. Dia da formatura, regozijo intenso para os pais, sonho realizado!

Com o tempo, conseguiram comprar um Fusca, de grande utilidade, que levou a família a passeios maravilhosos e aos casamentos dos filhos.

Os filhos cresceram, namoraram, casaram, cada um formou seu lar. Agora eram seis num só coração. A casa da felicidade ficou grande demais para os pais. Quando os visitavam era alegria total.

O casal envelheceu, cabelos brancos, rugas, saudade permanente, mas o amor ardente, se fez sempre presente: um amor perfeito.

Saíram da casa, palco de tantas recordações amenas, testemunha da vida de uma família que muito lutou para melhorá-la e muito se amou, foi dolorosa e muitas lágrimas rolaram.

Uma frase constante de ambos: “é tão bom termos um ao outro”.

Resolveram novamente estudar, como quando se encontraram, lado a lado, nos bancos escolares. Muitos amigos conquistaram nos vários cursos onde ingressaram.

Relembraram os vinte, trinta, quarenta, cinqüenta e aos sessenta e sete anos uma surpresa os aguardava: o neto nasceu e da sua vida hoje muito compartilham. Estudo, netinho, renovação, novas emoções para os velhos corações. A alma não envelhece, quando algo de bom acontece.

Escreveram livros, fizeram palestras, esmiuçaram a história do bairro que muito amam e que os acolhe ao longo dos anos, até prêmios receberam. Agora, na terceira idade, eles são talento um do outro.

A gentileza e carinho, nos gestos mais simples, entremeiam a vida do casal, sempre que um bebe água, a oferece ao outro, o mesmo acontecendo com o cafezinho. As datas festivas também são sempre lembradas: Dia dos Namorados, das Mães, dos Pais e principalmente a data do casamento. No Natal, cada qual escreve seu cartão com um retrospecto do ano em família, sempre ressaltando a união feliz dos dois. Aliás, o Natal é sempre aguardado com carinho e a família se reúne entre beijos e abraços para festejar o nascimento de Jesus e agradecer a união da qual todos participam.

O amor perfeito está acima de tudo.

São almas unidas, onde o amor se extravasa. São cinqüenta e cinco anos de feliz caminhada na longa estrada. Nunca se preocupam com rotina. A vida sempre foi simples. O que importa não é o que se tem, mas quem se tem. Ainda acalentam muitos sonhos, pois os sonhos não envelhecem. Amam a natureza, o próximo, a família, os amigos, e porque muito se amam e o grande objetivo foi chegarem às Bodas de Ouro, em 2010 com muita felicidade. Em 2015 comemoraram novamente, com muito amor, os cinqüenta e cinco anos de casados: Bodas de Ametista. Fizeram um cruzeiro inesquecível.

Que esta história verídica mostre às novas gerações que o amor bem alicerçado é eterno.

A ave procura um ninho, onde possa se abrigar. Eles encontraram o amor perfeito e Deus em sua infinita bondade lhes permitiu uma família amada e abençoada.

Rio de Janeiro, 16 de maio de 2015.

Josepha Barbosa Soares

 

 

 

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MEDALHA DE OURO (E TROFÉU)

 

 

 

FERNANDO BEVILÁCQUA (RIO DE JANEIRO – RJ)

 

CESTRUM NOCTURNUM

 

  

 

 

MEDALHA DE PRATA

 

 

 

ALDA FUYOL (NITERÓI – RJ)

 

AMOR ENTRE MÃE E FILHA